— Você não tá resolvida, vê se entende!
— Mas por que que eu não posso ser assim mesmo?
— Assim mesmo o quê?
— Assim: não resolvida, feito você diz, descosturada. mal acabada, tanto pedaço de mim rasgado (sabia que você me rasgou demais?). Você sonhou pra mim uma vida toda bem feita, só que a tua idéia não deu certo e eu fiquei desse jeito. Mas por que que você precisa rasgar o que eu fiquei? Por que que você não pode me contar pros outros assim? Desacertada, inacabada, esperando a luz que, um dia, vai se acender (ou não) em tudo que é pedaço que eu tenho de escuridão? Puxa vida! eu nasci pra viver num livro! livre! (você sabe tão bem quanto eu que
não tem nada mais livre que um livro); já chega o tempo que eu fiquei numa gaveta, já chega o tempo que eu fiquei na tua cabeça: tudo tão fechado, tão cheio de complicação. Eu quero ir lá pra fora!!
E hoje ela foi.
Lygia Bojunga - Fazendo Ana Paz




